Câmara de Araraquara mergulha em crise política após sessão marcada por acusações, denúncias de transfobia e ameaça de rompimento com o governo Lapena
Conflito envolvendo Filipa Brunelli, Balda, João Clemente e Maria Paula expôs divisão interna da base governista e elevou tensão política no Legislativo
Por Eloos
27/05/2026 | Atualizado em 27/05/2026 - 10h45
Sessão da Câmara de Araraquara terminou em confronto aberto entre vereadores, com acusações graves, denúncias de perseguição política, debate sobre transfobia e ameaça de rompimento dentro da base do governo Lapena. A sessão da Câmara Municipal de Araraquara desta semana revelou muito mais do que um simples embate entre vereadores. O que ocorreu no plenário expôs uma crise política profunda dentro da base de sustentação do prefeito Dr. Lapena, trouxe à tona discussões sobre transfobia, perseguição política, ética parlamentar e ainda escancarou o desgaste entre vereadores aliados do próprio governo.
O epicentro da crise foi a vereadora Filipa Brunelli, que passou a ser alvo de reações após declarações contundentes envolvendo parlamentares da Câmara e a postura de vereadores diante da proposta da data-base dos servidores municipais.
A origem da crise: fala de Filipa sobre vereadores “comprados”
A tensão começou após Filipa questionar publicamente a independência política de vereadores da base governista durante os debates relacionados à data-base dos servidores.
Em sua fala, a parlamentar utilizou o termo “comprados” em sentido político e figurado, afirmando que parte dos vereadores estaria abrindo mão da autonomia parlamentar para seguir orientações do Executivo.
A declaração gerou forte reação dentro da Câmara e passou a ser interpretada por alguns vereadores como acusação direta de corrupção ou favorecimento político.
Ao responder às críticas, Filipa endureceu ainda mais o discurso.
“O meu povo já se retratou e se rebaixou muito para pessoas como o senhor. E a gente não vai mais se retratar para gente do seu nível.”
A vereadora também afirmou que existe um movimento político organizado para silenciá-la.
“O prefeito foi nas redes sociais dos senhores, instruiu os senhores a me colocar no Conselho de Ética. Instruiu os senhores a me denunciar.”
Denúncias de transfobia elevam gravidade do debate
O momento mais delicado da sessão ocorreu quando Filipa Brunelli afirmou ter sido alvo de ataques transfóbicos nas redes sociais.
Segundo ela, comentários ofensivos teriam sido incentivados ou ignorados por adversários políticos.
“Vocês aplaudiram a transfobia contra mim.”
A fala ampliou o debate para além da política tradicional e levou a discussão para temas relacionados à violência política de gênero, transfobia e limites do confronto político dentro das instituições públicas.
Balda reage e ameaça romper com o governo
As declarações de Filipa provocaram forte reação do vereador Balda, que negou qualquer favorecimento político e afirmou que sua honra foi atingida.
“Eu tenho moral, eu tenho caráter e eu tenho dignidade. E eu não achei isso na rua.”
Balda declarou que pretende levar o caso à Justiça e ao Ministério Público e exigiu que Filipa apresente provas das acusações feitas.
“A senhora vai ter que provar para o juiz qual foi o dia da negociação, como foi pago e quem foi que me pagou.”
No entanto, o momento politicamente mais explosivo ocorreu quando o vereador admitiu publicamente que está prestes a romper com a base do prefeito Dr. Lapena.
“Eu estou a um passo para romper com o governo.”
Balda afirmou enfrentar dificuldades dentro do chamado “sexto andar” da Prefeitura — expressão usada para se referir ao núcleo político do Executivo — e reclamou de isolamento dentro da própria base governista.
Segundo ele, outros vereadores possuem centenas de pedidos e indicações atendidos pelo governo, enquanto suas demandas não avançariam.
“Enquanto tem vereadores com 700, 900 pedidos atendidos, eu estou roendo o osso.”
Universaliza SP entra no centro da crise
Outro ponto importante da fala de Balda foi a menção à Universaliza SP.
O vereador afirmou que não assinou um documento elaborado por 17 parlamentares porque confiou na palavra do prefeito. Porém, declarou que, caso o governo não rompa com a empresa, isso será mais um motivo para abandonar a base governista.
A declaração aumentou a pressão política sobre o Executivo e reforçou a percepção de desgaste interno no grupo de apoio ao prefeito.
João Clemente parte para o ataque político
O vereador João Clemente também entrou no confronto e fez críticas diretas a Balda.
Em discurso carregado de ironia, afirmou sentir falta do antigo perfil combativo do vereador e disse que ele teria perdido força política dentro do governo.
“O senhor tem foto, mas não tem força política.”
João Clemente também declarou que Balda estaria recorrendo ao discurso ideológico por não possuir espaço político consolidado.
“O senhor não é de lugar nenhum.”
Apesar das críticas, João Clemente saiu em defesa de Filipa Brunelli e afirmou reconhecer nela posicionamento político, trabalho e caráter.
“Filipa Brunelli tem trabalho. Filipa Brunelli tem ideologia. Muitas delas confrontam aquilo que eu penso. Mas muito mais: Filipa Brunelli tem caráter.”
Maria Paula fala em perseguição política e machismo institucional
A vereadora Maria Paula também se posicionou em defesa de Filipa e classificou o movimento contra a parlamentar como perseguição política.
Segundo Maria Paula, existe uma tentativa de transformar Filipa em alvo político enquanto problemas importantes da cidade deixam de ser debatidos.
A parlamentar afirmou ainda que uma eventual representação no Conselho de Ética poderá reforçar uma imagem de machismo institucional e transfobia dentro da Câmara Municipal.
Crise expõe fragilidade da base governista
A sessão terminou deixando uma percepção clara nos bastidores políticos: a base do prefeito Dr. Lapena atravessa um dos momentos mais delicados desde o início da legislatura.
As falas revelaram desgaste entre vereadores aliados, insatisfação com o Executivo, disputas internas por espaço político e um ambiente cada vez mais radicalizado dentro do Legislativo.
O que começou como um debate sobre servidores públicos acabou se transformando em uma crise política ampla, envolvendo ética parlamentar, identidade de gênero, independência política, relação entre Executivo e Legislativo e ameaça concreta de ruptura dentro da própria base governista.







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