“Transfobia não é opinião”: Filipa Brunelli faz discurso forte na Câmara de Araraquara
Em discurso na sessão de terça-feira (24), vereadora criticou a transfobia institucional, rebateu discursos conservadores e afirmou que mulheres trans têm direito de ocupar espaços de poder
Filipa Brunelli durante discurso na Câmara Municipal de Araraquara, em defesa de Erika Hilton e contra a transfobia. Na sessão da Câmara Municipal de Araraquara realizada na terça-feira (24), a vereadora Filipa Brunelli fez um discurso firme em defesa da deputada federal Erika Hilton, recentemente alçada à presidência da Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados. Em uma fala contundente, a parlamentar denunciou a transfobia institucional no país, criticou setores conservadores e reafirmou a legitimidade de mulheres trans e travestis nos espaços de representação política.
Ao abordar o tema, Filipa afirmou que a reação contrária ao nome de Erika Hilton revela o quanto a política brasileira ainda é atravessada por preconceitos estruturais. Para a vereadora, a resistência à presença de uma mulher trans em um posto de destaque escancara a exclusão histórica imposta a essa população.
Representatividade e violência estrutural
Durante o pronunciamento, Filipa destacou que pessoas pretas e pessoas trans seguem sub-representadas nos espaços de poder, mesmo diante de avanços pontuais na política institucional. Segundo ela, tanto o racismo estrutural quanto a transfobia produzem violência, exclusão e morte, o que torna ainda mais simbólica a presença de Erika Hilton na presidência de uma comissão voltada às pautas das mulheres.
A vereadora defendeu que a ocupação desses cargos por mulheres trans não deve ser tratada como exceção, mas como expressão legítima da democracia e da pluralidade da sociedade brasileira.
Crítica ao discurso biológico e conservador
Filipa também rebateu falas que reduzem a condição da mulher a critérios biológicos ou reprodutivos. Em sua argumentação, afirmou que resumir a mulheridade à capacidade de gestar, menstruar ou amamentar reforça uma visão patriarcal e limitada, incapaz de compreender a diversidade da experiência feminina.
A parlamentar observou ainda que esse tipo de discurso não exclui apenas mulheres trans, mas também mulheres cisgêneras que, por diferentes razões, não se enquadram nesses parâmetros. Para ela, o debate precisa ser feito com responsabilidade e sem simplificações.
Outro ponto levantado foi o uso seletivo da ciência por grupos conservadores para sustentar ataques à população trans. Filipa afirmou que a biologia humana é mais complexa do que a visão binária frequentemente repetida no debate público, e lembrou que a própria ciência reconhece variações biológicas que vão além da lógica estrita entre masculino e feminino.
“Transfobia não é opinião”
Em um dos momentos mais incisivos do discurso, Filipa Brunelli reafirmou sua identidade como mulher travesti e recordou sua trajetória política em Araraquara. Ela destacou que foi a primeira travesti eleita para o Legislativo municipal e, até hoje, a única a ocupar uma cadeira na Câmara da cidade.
Ao longo da fala, a vereadora sustentou que ataques à identidade de mulheres trans não podem ser relativizados como opinião pessoal ou liberdade de expressão. Segundo ela, esse tipo de manifestação precisa ser entendido como discurso de ódio, com efeitos concretos na manutenção da violência contra travestis e transexuais em todo o país.
Feminilidade, misoginia e transfobia
A parlamentar também associou a transfobia a outras formas de opressão estrutural, como a misoginia e a homofobia. Para Filipa, essas violências têm um mesmo eixo: o ataque à feminilidade e aos corpos que desafiam padrões historicamente impostos pelo patriarcado.
Em outro trecho do pronunciamento, ela direcionou críticas a setores conservadores que, segundo sua avaliação, questionam a presença de mulheres trans em espaços institucionais, mas pouco contribuem para o avanço de políticas públicas efetivas em defesa das mulheres.
Defesa de Erika Hilton e recado político
Ao defender Erika Hilton, Filipa afirmou que mulheres travestis e transexuais não estão disputando o lugar de mulheres cisgêneras, mas reivindicando um espaço que também lhes pertence por direito. Para a vereadora, a presença da deputada federal na presidência da Comissão da Mulher representa não apenas uma conquista individual, mas um marco político diante da tentativa histórica de marginalização dessa população.
No encerramento, Filipa deixou claro que mulheres trans e travestis seguirão ocupando os espaços de decisão e poder, apesar da resistência de grupos conservadores. A fala reforçou o tom de enfrentamento adotado pela vereadora diante de discursos que, segundo ela, ajudam a perpetuar a violência e a exclusão.
O discurso repercute em um momento de intensificação do debate público sobre representatividade, direitos das mulheres e combate à transfobia no Brasil.
Confira o vídeo do pronunciamento.







COMENTÁRIOS